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O Piauí celebra hoje o Dia Estadual das Quebradeiras de Coco Babaçu, data instituída pela Lei nº 6.669/2015 e que reconhece oficialmente a atividade como tradicional do Estado. A homenagem ecoa em várias regiões, destacando-se na valorização do trabalho de milhares de mulheres que transformam o babaçu em sustento, cultura e resistência. Entre as programações deste ano, a Assembleia Legislativa realizou sessão solene em tributo às quebradeiras, reforçando a relevância da atividade para a identidade piauiense.

A força histórica do babaçu

Quebrar coco não é apenas uma prática econômica: é memória coletiva. Durante décadas, mulheres em comunidades rurais do Norte e Meio-Norte do Piauí sustentaram famílias a partir dos babaçuais, transformando amêndoas em óleo, sabão, artesanato e produtos que alimentaram economias locais. O ofício, passado de geração em geração, carrega marcas de luta contra a pobreza, a desigualdade de gênero e os conflitos fundiários.

O babaçu é símbolo de resistência, pois cada palmeira preservada representa não apenas alimento e renda, mas também autonomia. Na Mata dos Cocais, essa atividade ajudou a fixar famílias no campo e moldou modos de vida que permanecem como patrimônio cultural.

Políticas de valorização e proteção

Nos últimos anos, conquistas importantes foram registradas no Piauí:

  • Lei Babaçu Livre (Lei Estadual nº 7.888/2022): garante livre acesso aos babaçuais, proíbe a derrubada de palmeiras e o uso de agrotóxicos por pulverização, além de coibir queimadas e a coleta predatória.
  • Reconhecimento legal: a atividade foi elevada a patrimônio cultural do Estado, fortalecendo o direito das quebradeiras em reivindicar espaço em políticas públicas.
  • Mesa de Diálogo Permanente entre governo e o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), para tratar de demandas como comercialização, preservação e regularização fundiária.
  • Titulação coletiva de territórios: comunidades como Vila Esperança e Santa Rosa já receberam reconhecimento oficial de terras de uso tradicional, assegurando proteção às famílias que vivem do babaçu.

Esses avanços apontam para um futuro em que a atividade deixa de ser apenas “sobrevivência” e se consolida como parte estruturante da economia solidária e da agroecologia no Estado.

A coordenadora executiva do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) no Piauí, Marinalda Rodrigues, destaca a importância da legislação. “Essa lei é fundamental porque garante o acesso das quebradeiras aos babaçuais, sejam eles em áreas públicas ou privadas. Ela também protege as palmeiras e ajuda na preservação da natureza como um todo”.

Boa Hora e o potencial invisível

No município de Boa Hora, ainda não há registros públicos de territórios titulados ou de associações de quebradeiras organizadas, diferentemente de outras cidades da região. O município, conhecido pela tradição da rapadura e da agricultura familiar, pode abrigar mulheres que exercem a quebra do coco em menor escala, muitas vezes sem visibilidade. Essa lacuna reforça a necessidade de ampliar o olhar das políticas estaduais para identificar e apoiar comunidades onde a atividade permanece dispersa e invisibilizada.

Mais que celebração: um chamado à ação

O Dia Estadual das Quebradeiras de Coco Babaçu não deve se limitar às solenidades. Ele convida sociedade e gestores públicos a olharem com respeito para essas mulheres que, por séculos, vêm sustentando famílias e preservando a natureza. O reconhecimento em lei é um passo, mas o desafio é transformar a data em políticas efetivas: incentivo à produção e comercialização, inclusão das quebradeiras em programas de agricultura familiar, proteção contra desmatamentos e garantia de sucessão geracional.

No Piauí, o babaçu não é apenas um fruto: é história, identidade e esperança. Que o dia 24 de setembro seja sempre lembrado como marco de luta e dignidade para as mulheres que fazem da palmeira um símbolo de resistência e vida.

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